sexta-feira, janeiro 15, 2010

Conversas soltas...


Numa conversa de café, com amigos, alguém dizia: - Estou preocupado com a pessoa A - está a embrutecer! Vai optar por algo que lhe fará mal e as suas queixas são a antevisão da sua infelicidade!!!!


Ouvia atentamente mas mantive-me calada.


Claro está, a malta estranhou e perguntou: - Tu não achas?


Olhei-os ( há nos meus olhos ironias e cansaços, e cruzo os braços e nunca vou por ali)

- Não, não acho. As pessoas habituam-se às queixas, a lamentar-se e no fundo, estão como desejam, com as opções que crêem que as farão mais felizes. Com essa pessoa A, no passado, tive várias conversas, onde tentei dialogar e desmistificar as queixas, a pessoa A entra em piloto automático e, apesar das queixas, persiste nas opções! Se calhar porque quer mesmo optar e simultâneamente queixar-se.

Passamos a vida centrados nas opções e mudanças alheias e as nossas?

Acho que duro é apostarmos nas nossas mudanças em vez de sermos atentos observadores dos outros!


Ficou um silêncio. Aquele silêncio reprovador de quem me olha como insensível!

Sorri e pensei: há 10 anos atrás, com 25 anos, acreditava realmente que as pessoas se queixavam porque queriam mudar, perceber os caminhos alternativos, sair da rota de colisão de que se lamentavam... Desconhecia o mecanismo de desresponsabilização das opções. Desconhecia que se pode optar e queixar, ficando assim, liberto do peso de cada escolha feita. A eterna leveza da vitimização social...


Hoje, com 35 estou, cada vez mais a disciplinar-me em ouvir, em respeitar as opções alheias, em perceber que cada um escolhe o calçado que quer usar... Que cada um de nós é livre para crescer ou se infantilizar; de se queixar ou empreender ou por e simplesmente calar e reflectir...
O mergulho interior é o mais dificil...


Cada vez mais, preciso e quero, focar-me nas minhas mudanças, no que acredito ser capaz de alcançar. Ao outro, que naturalmente habita em nós, cabe-nos OUVIR, OUVIR e , por mais que seja nos penoso, observar a queda e o erguer e o perder e encontrar, no tempo que cada um de nós sente. Tudo no mais profundo respeito pela liberdade que existe em cada um de nós.
No respeito de que nem sempre percebemos as escolhas alheias como os outros não percebem as nossas!!! E isso não é grave! Desde que cada um comprenda e enfrente as suas próprias opções.

3 comentários:

António Sérgio disse...

Sabes, já decerto teremos falado nisso, mas não concordo. É grave, sim. Muito. Que a maioria das pessoas não o faça, que a maioria não mergulhe em si e outras tantas coisas. Daí, de vez em quando, no seu devido tempo, lanço umas interrogações, que a pessoa pode querer pensar ou não. Está na liberdade dela. Agora, remeter-me ao silêncio apenas? Não, isso é viver demasiado dentro de mim e ainda não deixei de acreditar na espécie. :)

Ania disse...

Ainda ontem tive uma conversa semelhante e continuo a pensar, provavelmente de uma forma errada, mas é apenas mais uma opinião; que quem muito se queixa apenas tenta focar as atenções dos outros em si.
Tornam-se cansativos, centrados no EU pelo caminho mais simples e egocêntrico. Exigem dos outros aquilo que não conseguem exigir de si mesmos.
Evitam a mudança porque se sentem seguros nesse papel de vitimização.
Promovem claro está um sentimento de preocupação nos outros.
E para os outros é o alvo das conversas.
Assim não temos tempo para pensar nas nossas opções, nas nossas escolhas, na nossa vida porque preferimos manter-nos ocupados com as decisões dos outros.
Penso que também passa por uma questão cultural.
Se estivermos mais atentos a nós e menos aos outros para muitas pessoas nada resta…porque a vida interior já se tornou num enorme vazio…

Jota disse...

lembro-me ter lido na "Profecia Celestina" que muitas vezes entramos num "filme" e esperamos que os outros entrem nesse filme, que reajam sempre da mesma forma e que tenha o mesmo fim... podemos até sentir-nos mal, mas sentimo-nos em "casa"... e mudar de casa é trabalhoso, principalmente quando já temos a casa cheia de retratos do que fomos, de aguarelas estrategicamente colocadas a tapar as rachas na parede.
Nada como uma resposta diferente para sair do filme, a dita "insensibilidade", uma paixão ou um drama, para sobressair uma vontade de "sair de casa" e ir ao encontro do mundo=) ou tudo isto ao mesmo tempo - tipo tsunami - como me sucedeu à pouco tempo. A libertação é tão confortavel quanto um dia chuvoso num espaço desabrigado, mas sinto-me mais vivo e isso vale tudo=)